domingo, 27 de janeiro de 2013

As Mazelas da Moral, Segundo Rousseau e Nietzsche

"(...) cada qual deve ver como é impossível subjugar um homem sem antes tê-lo colocado na situação de não viver sem o outro" Rousseau

"De fato, nós, filósofos e 'espíritos livres', ante a notícia de que o 'velho Deus morreu' nos sentimos como iluminados por uma nova aurora." Nietzsche

A moral é um conjunto de normas e conceitos que se aceita intimamente. Ela modela padrões da sociedade, sendo construtiva ou destrutiva. Em ambos os autores citados, a moral tem um poder destrutivo para o indivíduo.

Rousseau discorre sobre uma moral construída pela elite e fundamental para que a maioria das pessoas aceitem a estratificação da sociedade como algo natural. Para dois indivíduos, sendo um "socialmente superior" ao outro, independente dessa superioridade forjada pela moral, a relação de interdependência é mútua; é essa moral elitista que leva o indivíduo a se encontrar em uma situação de inferioridade; a achar que sua dependência para com o outro é maior que a inversa. O absurdo para Rousseau é o fato das pessoas viverem em situações até humilhantes por não entenderem os laços de servidão.

A religião, para Nietzsche, gera uma situação de falso conforto, que leva as pessoas a suportarem o desconforto temporário devido à crença em um conforto futuro e eterno. Para que esse conforto eterno seja garantido, são impostas certas limitações e aceitações, levando a uma subserviência a um ser sobrenatural criado pelos homens. Ele chama essa moral de moral de rebanho. Segundo ele, essa visão deturpada de deus, essa formulação de uma entidade divina que dita regras a serem seguidas, é o próprio assassinato de Deus. A partir do momento que se percebe que "deus está morto", o indivíduo torna-se um espírito livre, capaz de escapar das limitações dessa moral de rebanho.

A quebra com a moral para Rousseau traria uma extinção das desigualdades socias, enquanto que para Nietzsche, o rompimento com a moral de rebanho levaria o indivíduo a uma liberdade interior. Ambos, pois, veem a moral como fator limitante da vida como um todo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Fé Cristã e o Medo

Por que os cristãos sentem tanto medo? O que os leva a temer tanto a inexistência de um deus? E o que os leva a desejar tanto a existência de um deus?

Em primeiro lugar, é necessário entender que toda a fé cristã é baseada no medo - lembrando que a fé cristã não traduz os ensinamentos de Jesus Cristo, mas é apenas um meio de controle moral e intelectual que utiliza os suspostos ensinamentos de Cristo, que estão contidos na Biblia. Se um cristão percebe que alguém está fazendo uma coisa errada, ele automaticamente afirma "Deus castiga". Obviamente, essa afirmação não teria sentido se ela não causasse um temor no ouvinte. E esse medo criado no cristianismo é essencial para o seu crescimento no mundo Ocidental. Todo a vida no Ocidente se baseia no medo: quando somos pequenos, ouvimos canções de ninar que falam que algum monstro vai nos pegar quando formos dormir, ou se fizermos alguma coisa errada; quando vamos comprar um imóvel, nos preocupamos com a segurança e etc. É claro que o medo não acaba por aí. A vida não é o limite para o temor. Mesmo após a morte, os cristãos ainda afirmam que todos pagarão por seus pecados, ou seja, o medo transcende a própria vida, sendo, assim, superior a ela. Para chegar a esse nível, se fe necessária a criação do Inferno, que não passa de uma representação do motivo pelo qual temer.

Mas qual o objetivo do medo? O controle! Toda sociedade, comunidade, seita ou afim que se baseia no medo tem como objetivo principal permitir que aqueles que estão em uma posição superior possam controlar os demais. Em outras palavras, o cristianismo criou o Diabo - que é a personificação do mal - e os pecados para controlar não só as ações, mas também os pensamentos das pessoas, afinal "Não cobiçarás a mulher do próximo" - para deixar ainda mais claro, não estamos tratando dos ensinamentos de Cristo, simplesmente, então cabe, sim, citar o Antigo Testamento - é um mandamento que impede o cristão de pensar como bem entende.

Essa afirmação não está longe do que os próprios cristãos pregam, afinal eles se consideram cordeiros, e chamam Jesus, assim como seus representantes religiosos, no caso das religiões protestantes, de pastor; no caso do catolicismo, o representante religioso que tem mais contato com os fiéis é o padre, cujo significado é pai, que é uma figura de poder. E os cordeiros são criaturas que andam sempre juntos e em bando. Em outras palavras, não possuem individualidade... fazem o que fazem pelo que os outros fazem. Representam, pois, a bitolação da fé cristã.

Voltando ao tema original, o medo não para aí. Os fieis temem os não-fieis. Mas por quê? Pura e simplesmente porque não conseguem adimitir que gastaram suas vidas, crenças e princípios em uma possível farsa. É mais fácil adimitir que eles estão certos e que os demais são loucos, ou simplesmente são maus, do que acreditar que tudo no que eles acreditavam estava errado. Continuando no mesmo caminho, um fiél teme que não exista um deus porque isso significaria que ele foi enganado durante toda a sua vida, então em quem, ou no quê deveria acreditar?

Richard Dawkins, um biólogo britânico conhecido por ser um dos maiores divulgadores do neo ateísmo - vertente nova do ateísmo que é mais radical do que esse e afirma que um mundo sem crenças religiosas seria melhor - já foi perguntado "e se você estiver errado". E ele prontamente respondeu perguntando o que aconteceria se essa pessoa estivesse, também, errada quanto à não-existência de Zeus, Rá, Thor e outros deuses mais... Quando ele foi perguntado sobre o que diria se ele encontrasse com deus após sua morte, ele respondeu que falaria "Desculpe, Deus, não havia provas suficientes".

"Um vida vivida com medo é uma vida vivida pela metade" Anônimo

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Liberdade e Religião

Por que seguimos uma religião? O que nos leva a sair do nosso posto de seguir com a vida e buscar algo mais? Acreditar em algo mais? É claro que existem muitas respostas para essas perguntas. São inúmeros os motivos que nos fazem Buscar uma religião; e cada um desses motivos é compatível com uma religião (ou grupo delas).

Existe um motivo em especial que é comum às religiões monoteístas, ou, ao menos, às mais famosas. O fator principal que leva alguém a seguir essas religiões é o conforto. O conforto de não ter que pensar em muitas das perguntas primordiais, como "Quem eu sou?", "De onde vim?", "Para onde vou?". Acrescentando um deus onipresente, onisciente e onipotente, todas essas perguntas são explicadas. E quando elas não são explicadas, facilmente se tem um argumento que não pode ser discutido, como "nós não temos capacidade de compreender os planos divinos" ou "deus escreve certo por linhas tortas".

É óbvio que, como para toda regra existe uma excessão, esse raciocínio não se aplica para todas as pessoas. Mas uma característica fundamental de muitos dos monoteístas é a preguiça. Simplesmente a preguiça de se dar ao trabalho de imterpretar o seu livro sagrado, deixando esse trabalho para o "líder" dos encontros religiosos, tais como o padre, rabino (do hebraico רַבִּי), imã (em árabe امام) ou pastor. Preguiça de não se dar ao trabalho de procurar outras respostas e simplesmente se contentar com o que está à frente.

Inclusive a própria religião monoteísta já "impede" uma busca a outras respostas. O Corão diz:

"Ele é Deus e não há outro deus senão Ele, Que conhece o invisível e o visível. Ele é o Clemente, o Misericordioso!

Ele é Deus e não há outro deus senão ele. Ele é o Soberano, o Santo, a Paz, o Fiel, o Vigilante, o Poderoso, o Forte, o Grande! Que Deus seja louvado acima dos que os homens Lhe associam!

Ele é Deus, o Criador, o Inovador, o Formador! Para ele os epítetos mais belos" (59, 22-24)

Sendo assim não cabe aos que creem nessas palavras buscaem outras palavras.

Além disso, os monoteístas costumam ser hipócritas. Os mesmos que dizem que um dos dez mandamentos de deus é "não matarás" é a favor da pena de morte, ou, simplesmente, se acha no direito de julgar outra pessoa, enquanto esse julgamento só cabe a deus e mais ninguém. São os memos que fazem guerras santas e que tentam levar a "verdade" através da força bruta.

Uma crítica forte dos ateus para com os religiosos é justamente a afirmação de que a crença monoteísta não passa de uma crença baseada na comodidade; é mais fácil pensar que quando morremos vamos para o Paraíso do que imaginar que a morte significa o fim de toda a existência.

Por outro lado, os ateus se encontram, também, numa posição cômoda, no que diz respeito à ausência de leis (que não as criadas pelo homem) ou dogmas os quais seguir. Os ateus diferem muito entre si, porque como caracterizam-se por não acreditar em deus, isso não impede que eles acreditem em outras coisas, ou que sigam os ensinamento de uma ou mais religiões, assim um ateu pode amar ao próximo como ama a si mesmo sem necessariamente acreditar que esse ensinamento partiu do filho de deus. Porém, independentemente das outras crenças dos ateus, todos eles experimentam uma liberdade que não existe para os seguidores de alguma religião. Essa ausência de dogmas é a liberdade. Fato esse que não torna-os pessoas ruins ou algo similar; eles apenas não são obrigados a seguir determinadas obrigações que não por suas próprias convicções, e não porque alguém disse. A comodidade dos ateus é, pois, uma consequência da liberdade deles, e não o objetivo buscado.

E se existe um destino, se tudo está escrito e se deus é onipresente, um ateu so o é porque deus quer ou porque não lhe deu o suficiente para que ele pudesse acreditar, o que, ainda assim, é uma escolha divina.

"De que vale ao homem conquistar todos os tesouros da Terra e perder sua alma?" - Jesus Cristo

"A religião nunca será capaz de reformar a humanidade porque a religião é uma escravidão" - Robert Green Ingersoll

"O que somos hoje e o que seremos amanhã depende de nossos pensamentos. Se procedo mal, sofro as consequências; se procedo bem, eu mesmo me purifico." - Sidharta Gautama

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Asas e Armas

Quanto à relação moral entre o interesse público e o privado, eu penso que esse conflito é a base de muitos questionamentos morais. Moralmente, eu desejo o bem-estar de todos, inclusive o mei próprio. Porém, no momento em que me deparo com um marginal (indivíduo que está à margem da sociedade), não divido a minha comodidade (principalmente econômica) com ele, por puro interesse pessoal; ou seja, não quero perder parte de minha comodidade em detrimento dele, causando o deconforto moral supracitado.

Por outro lado, nós, humanos, enquanto zoon-politikon, não nos atemos apenas ao comportamento moral, mas também temos um comportamento político. E a política, por sua vez, não dialoga com a moral, como mostra o realismo político (que eu acredito ser uma posição de diálogo com a moral que mais se aproxima da real atualmente). Essa visão, apesar de erroneamente julgar que o domínio específico da moral é a vida privada, admite um certo caráter maquiavélico, de forma que a vida pública seja mais importante que a privada; daí a miséria de alguns.

A política, no entanto, deveria por si só garantir em um futuro uma coesão com a moral - o fim do realismo político - e, por conseguinte, garantir uma comunhão entre as vidas pública e privada. Isso nao acontece porque o sistema político-econômico vigente visa um lucro exacerbado - causa, inclusive, da atual crise ambiental -, o que deturpa o interesse privado. Gandhi falou que o mundo pode suprir a necessidade de todos, mas não a usura e gula de alguns. Ademais, esse sistema é favorecido pelo direito - que se alia em muitos pontos com a moral - que inviabiliza algumas ações de restauração do equilíbrio - como é o caso do roubo (ato também imoral), onde em geral quem tem menos condições financeiras rouba de quem tem mais - tornando-as passíveis de serem punidas.

A moral contemporânea evoluiu desde a Idade Média, mas ainda possui vários conceitos daquela época (como a imoralidade já citada do roubo), com a diferença de que hoje essa moral tem o subsídio do direito. Ou seja, enquanto antigamente era possível matar o ladrão (ato também imoral), hoje o Estado toma a atitude e prende-o, com a falsa desculpa de reeducá-lo ao convívio em sociedade; mas ele sai "pior", ou fica eternamente maculado pelo fato de ter sido preso: se torna um indivíduo marcado. Essa moral, pois, é uma moral passiva, que dificulta mudanças, fechando o não-diálogo entrre a moral e a política.

Em outras palavras, segundo Spinoza e Hegel, as condições econômico-políticas e do direito possibilitam, no máximo, que saibamos que estamos em uma cadeia fechada de causalidade, isto é, que nossa liberdade se restringe ao conhecimento de nossa escravidão. Dessa forma, não possuímos responsabilidade moral pelos sujeitos que vivem em miséria, apesar de que devemos, sim, compadecermo-nos com sua situação. Por outro lado, Marx e Engels afirmam que se possuímos esse conhecimento, podemos e devemos tomar uma atitude para mudar tal situação, então quem consciência desse fato tem responsabilidade moral sobre ele. Mas, por estarmos em uma situação de desequilíbrio social, nossas ações políticas podem acarretar em fatos imorais, apesar de possuírem uma premissa moral. É o que acontecia com o IRA, que praticava inúmeros atos terroristas (atos imorais) com o objetivo de garantir ao seu povo liberdade política e social (premissa moral).

A Coleira da Moral

"Cada qual deve ver como é impossível subjugar um homem sem antes tê-lo colocado na situação de viver sem o outro" Jean-Jacques Rousseau

"De fato, nós, filósofos e 'espíritos livres', ante a notícia de que o 'velho deus morreu', nos sentimos como iluminados por uma nova aurora" Fridriech Nietzsche

A moral é um conjunto de normas e conceitos que se aceita intimamente. Ela modela modela padrões da sociedade de forma contrutiva ou destrutiva. Para ambos os filósofos supracitados, a moral tem um poder desctrutivo para o indivíduo e para a sociedade.

Rousseau discorre sobre como uma moral construída pela elite é fundamental para que a maioria das pessoas aceitem a estratificação da sociedade como algo natural. Para dois indivíduos, sendo um "socialmente superior" ao outro, independente dessa superioridade forjada pela moral, existe uma relação de interdependência mútua; é essa moral elitista que leva o indivíduo que se encontra em uma situação de inferioridade a achar que sua dependência para com o outro é maior que a inversa. É um absurdo, pois, que pessoas vivam em situações inclusive humilhantes por não entenderem os laços de servidão.

A religião, para Nietzsche, gera uma situação de falso conforto, que leva as pessoas a suportarem um desconforto temporário devido a essa crença em um conforto futuro e eterno. Para que esse conforto eterno seja garantido, são impostas certas limitações e aceitações, levando a uma subserviência a um ser sobrenatural criado pelos homens. Ele chama essa moral de "moral de rebanho". Segundo ele, essa visão deturpada de deus, essa formulação de uma entidade divina que dita regras a serem seguidas, é o próprio assassinato de deus. A partir do momento que se percebe que "deus está morto", o indivíduo torna-se um "espírito livre", capaz de escapar das limitações dessa moral de rebanho.

A quebra com a moral parra Rousseau traria uma extinção das desigualdades sociais, enquanto que para Nietzsche, o rompimento com a moral de rebanho levaria o indivíduo a uma liberdade interior. Ambos, pois, veem a moral como fator limitante da vida como um todo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Ciência e a Pedra

Até a idade média, a evolução da ciência se via retardada pela soberania do saber religioso, seja de forma indireta ou não. Com o Renascimento, essa realidade começou a mudar: a valorização do homem (antropocentrismo) se confronta naturalmente com a visão teocentrista, o que implica em uma necessidade de explicar os acontecimentos com o mínimo de subterfúgios não questionáveis (crenças). A ciência, por atender a essa demanda, começa a crescer com velocidade maior que antes.

A evolução do saber científico resulta em duas consequências principais: um conhecimento maior acerca da natureza e dos seres que a compõem; e a possibilidade de usar esse conhecimento como instrumento para moldar a natureza. A primeira dessas consequências é atingida, também, pela religião, porém com explicações e confiabilidade diferentes. A segunda, no entanto, é diferente, para a religião: enquanto a ciência - em especial as ciências da natureza - possibilita um certo controle da natureza, a religião leva a um controle das ações, através do controle da moral - esse tipo de controle é aderido posteriormente pela ciência, principalmente através do behaviorismo, onde não se controla a moral, mas sim os costumes. Essa capacidade de controlar a natureza eleva a ciência, garantindo sua constante evolução e uma crescente aceitação pelo povo.
A política tem como intuito principal atingir determinados objetivos, existindo inúmeras formas de fazê-lo. Uma maneira aparentemente simples de atingir algum objetivo, é controlando as variáveis do problema. No caso de mudanças ou permanência de algo referente à sociedade, seja no aspecto cultural, ecoômico, ou outro, as variáveis do problema são os seres humanos. Seu controle é, portanto, um artifício extremamente interessante para que aqueles objetivos sejam alcançados. A ciência se mostra, pois, capaz de controlar os pensamentos e ações humanas - assim como a religião -, devido à sua aceitação enquanto verdade. Isso faz da ciência artifício político de controle, ou seja, deturpa seu objetivo inicial, que era de conhecer.
"O cientista não estuda a natureza porque ela é útil; estuda-a porque se delicia com ela, e se delicia com ela porque ela é bela. Se a natureza não fosse bela, não valeria a pena conhecê-la e, se não valesse a pena conhecê-la, não valeria a pena viver." Henri Poincaré
Visto que a política e a economia andam juntas, para a aplicação desse controle, faz-se necessário, antes, controlar o direcionamento, o que acontece através dos conselhos ou fundações de apoio às pesquisas. Para que uma descoberta científica aconteça, principalmente uma descoberta empírica, é necessário um patrocínio. Em outras palavras, a evolução da ciência está, hoje, praticamente restrita ao que tais organizações julgam interessantes, fato esse ordinário em um sistema político-econômico capitalista.
Devido à crescente rede de fast-food, não só no contexto de alimentação, o pensamento do ser humano gira em torno da velocidade da descoberta e sua utilidade, destruindo, novamente, o objetivo primordial da ciência. Para a ressurreição da ciência enquanto busca pela verdade - assim como a filosofia, porém com meios e fins diferentes - é necessária a aplicação do anarquismo epistemológico feyrabendiano, livrando a ciência das correntes econômicas e políticas e deixando-a livre.
"Sabedoria é, antes de tudo, a subordinação do saber ao interesse humano e não ao próprio interesse do saber pelo saber (ciência) e muito menos a interesses apenas parciais ou de certos grupos humanos." Anísio Teixeira

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Tao


Toda a vida existe em ciclos, sendo eles bióticos ou abióticos. A água que ingerimos anteriormente passa pela terra, segue o percurso de rios; depois que eliminamo-la, ela volta à terra, passa por organismos vegetais, volta às nuvens, desce à terra e continua o ciclo. O mesmo acontece com outras moléculas, ou até mesmo elementos químicos, como os notórios ciclo do carbono e do nidrogênio.

Um ciclo, porém, nunca existe sem equilíbrio; para tal, é necessária uma compensação entre o que é cedido e o que é recebido, ou seja, a lei kármica - ou, analogamente, a lei newtoniana da ação e reação - é o princípio fundamental para os ciclos, mesmo quando essa lei não atua sobre ações conscientes. Assim, não existe qualquer sentido falar em vida sem citar a morte.

A morte não passa, pois, de um elemento do ciclo do qual a vida faz parte. Não existe uma distinção entre esta e aquela, mas ambas se interceptam e se completam. Para tanto, o conceito de eternidade é intrínseco ao conceito de vida, mas não necessariamente uma eternidade consciencial. Em outras palavras, o conceito de eternidade da alma é externo - e não necessariamente verdadeiro - ao conceito de eternidade da vida.
Com tais premissas, não há qualquer sentido em viver a vida pensando no além-vida, ou viver uma parte do ciclo pensando em outra - ou o presente pensando no futuro. O momento é de extrema importância para seu consequente, i.e., viver o momento pensando em um outro é o mesmo que não vivê-lo.
Por outro lado, a existência do ciclo da vida implica na transmutação entre as espécies - fato esse evidenciado na teoria darwinista da evolução -, levando a uma conexão entre todos os seres. Indo além, o ciclo do carbono, por exemplo, integra, no mínimo, toda a matéria orgânica (viva ou não), reforçando os conceitos holistas - uma espécie pode ser interpretada como a manifestação imortal dos seres que a representam, podendo, pois, tomar uma espécie como um ser único e imortal.
"Sei que, se afirmasse com seriedade a alguém que o gato ocupado em brincar nesse momento no quintal é o mesmo que, há trezentos anos, fez as mesmas cabriolas e estratagemas, eu passaria por um tolo, mas sei também que é muito mais insensato acreditar numa diferença absoluta e radical entre o gato atual e aquele de há trezentos anos." Arthur Schopenhauer
Essa integração entre os seres leva a uma igualdade entre eles, evidenciando seu princípio comum, que pode ser interpretado como uma metáfora do átomo de Demócrito, ou até do princípio divino (ou energia vital). A máxima dessa afirmação é a consciência de que todos fazemos parte do todo, seja fisicamente - como exemplo os seres terrestres fazem parte do planeta e o completam - ou energeticamente - enquanto egrégora -, implicando não num conjunto de seres, mas numa comunhão deles.
"-Oh, como sofro! As outras ondas são grandes e eu sou pequena. Algumas estão em ótima situação, e eu sou tão desprezível...
-Você acha que sofre porque não viu claramente a sua forma original.
-Não sou uma onda? Então o que sou?
-Uma onda é apenas sua forma temporária. Você é água.
-Água?
-Quando perceber que sua essência é água, não ficará confusa em relação a ser uma onda e deixará de sofrer.
-Ah, entendi. Sou você, e você é eu. Somos parte de um eu maior." um koan
"Para ver o mundo em um grão de areia, e o paraíso em uma flor silvestre, segurar o infinito na palma de sua mão, e a eternidade em uma hora..." William Blake