quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Ciência e a Pedra

Até a idade média, a evolução da ciência se via retardada pela soberania do saber religioso, seja de forma indireta ou não. Com o Renascimento, essa realidade começou a mudar: a valorização do homem (antropocentrismo) se confronta naturalmente com a visão teocentrista, o que implica em uma necessidade de explicar os acontecimentos com o mínimo de subterfúgios não questionáveis (crenças). A ciência, por atender a essa demanda, começa a crescer com velocidade maior que antes.

A evolução do saber científico resulta em duas consequências principais: um conhecimento maior acerca da natureza e dos seres que a compõem; e a possibilidade de usar esse conhecimento como instrumento para moldar a natureza. A primeira dessas consequências é atingida, também, pela religião, porém com explicações e confiabilidade diferentes. A segunda, no entanto, é diferente, para a religião: enquanto a ciência - em especial as ciências da natureza - possibilita um certo controle da natureza, a religião leva a um controle das ações, através do controle da moral - esse tipo de controle é aderido posteriormente pela ciência, principalmente através do behaviorismo, onde não se controla a moral, mas sim os costumes. Essa capacidade de controlar a natureza eleva a ciência, garantindo sua constante evolução e uma crescente aceitação pelo povo.
A política tem como intuito principal atingir determinados objetivos, existindo inúmeras formas de fazê-lo. Uma maneira aparentemente simples de atingir algum objetivo, é controlando as variáveis do problema. No caso de mudanças ou permanência de algo referente à sociedade, seja no aspecto cultural, ecoômico, ou outro, as variáveis do problema são os seres humanos. Seu controle é, portanto, um artifício extremamente interessante para que aqueles objetivos sejam alcançados. A ciência se mostra, pois, capaz de controlar os pensamentos e ações humanas - assim como a religião -, devido à sua aceitação enquanto verdade. Isso faz da ciência artifício político de controle, ou seja, deturpa seu objetivo inicial, que era de conhecer.
"O cientista não estuda a natureza porque ela é útil; estuda-a porque se delicia com ela, e se delicia com ela porque ela é bela. Se a natureza não fosse bela, não valeria a pena conhecê-la e, se não valesse a pena conhecê-la, não valeria a pena viver." Henri Poincaré
Visto que a política e a economia andam juntas, para a aplicação desse controle, faz-se necessário, antes, controlar o direcionamento, o que acontece através dos conselhos ou fundações de apoio às pesquisas. Para que uma descoberta científica aconteça, principalmente uma descoberta empírica, é necessário um patrocínio. Em outras palavras, a evolução da ciência está, hoje, praticamente restrita ao que tais organizações julgam interessantes, fato esse ordinário em um sistema político-econômico capitalista.
Devido à crescente rede de fast-food, não só no contexto de alimentação, o pensamento do ser humano gira em torno da velocidade da descoberta e sua utilidade, destruindo, novamente, o objetivo primordial da ciência. Para a ressurreição da ciência enquanto busca pela verdade - assim como a filosofia, porém com meios e fins diferentes - é necessária a aplicação do anarquismo epistemológico feyrabendiano, livrando a ciência das correntes econômicas e políticas e deixando-a livre.
"Sabedoria é, antes de tudo, a subordinação do saber ao interesse humano e não ao próprio interesse do saber pelo saber (ciência) e muito menos a interesses apenas parciais ou de certos grupos humanos." Anísio Teixeira