sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Asas e Armas

Quanto à relação moral entre o interesse público e o privado, eu penso que esse conflito é a base de muitos questionamentos morais. Moralmente, eu desejo o bem-estar de todos, inclusive o mei próprio. Porém, no momento em que me deparo com um marginal (indivíduo que está à margem da sociedade), não divido a minha comodidade (principalmente econômica) com ele, por puro interesse pessoal; ou seja, não quero perder parte de minha comodidade em detrimento dele, causando o deconforto moral supracitado.

Por outro lado, nós, humanos, enquanto zoon-politikon, não nos atemos apenas ao comportamento moral, mas também temos um comportamento político. E a política, por sua vez, não dialoga com a moral, como mostra o realismo político (que eu acredito ser uma posição de diálogo com a moral que mais se aproxima da real atualmente). Essa visão, apesar de erroneamente julgar que o domínio específico da moral é a vida privada, admite um certo caráter maquiavélico, de forma que a vida pública seja mais importante que a privada; daí a miséria de alguns.

A política, no entanto, deveria por si só garantir em um futuro uma coesão com a moral - o fim do realismo político - e, por conseguinte, garantir uma comunhão entre as vidas pública e privada. Isso nao acontece porque o sistema político-econômico vigente visa um lucro exacerbado - causa, inclusive, da atual crise ambiental -, o que deturpa o interesse privado. Gandhi falou que o mundo pode suprir a necessidade de todos, mas não a usura e gula de alguns. Ademais, esse sistema é favorecido pelo direito - que se alia em muitos pontos com a moral - que inviabiliza algumas ações de restauração do equilíbrio - como é o caso do roubo (ato também imoral), onde em geral quem tem menos condições financeiras rouba de quem tem mais - tornando-as passíveis de serem punidas.

A moral contemporânea evoluiu desde a Idade Média, mas ainda possui vários conceitos daquela época (como a imoralidade já citada do roubo), com a diferença de que hoje essa moral tem o subsídio do direito. Ou seja, enquanto antigamente era possível matar o ladrão (ato também imoral), hoje o Estado toma a atitude e prende-o, com a falsa desculpa de reeducá-lo ao convívio em sociedade; mas ele sai "pior", ou fica eternamente maculado pelo fato de ter sido preso: se torna um indivíduo marcado. Essa moral, pois, é uma moral passiva, que dificulta mudanças, fechando o não-diálogo entrre a moral e a política.

Em outras palavras, segundo Spinoza e Hegel, as condições econômico-políticas e do direito possibilitam, no máximo, que saibamos que estamos em uma cadeia fechada de causalidade, isto é, que nossa liberdade se restringe ao conhecimento de nossa escravidão. Dessa forma, não possuímos responsabilidade moral pelos sujeitos que vivem em miséria, apesar de que devemos, sim, compadecermo-nos com sua situação. Por outro lado, Marx e Engels afirmam que se possuímos esse conhecimento, podemos e devemos tomar uma atitude para mudar tal situação, então quem consciência desse fato tem responsabilidade moral sobre ele. Mas, por estarmos em uma situação de desequilíbrio social, nossas ações políticas podem acarretar em fatos imorais, apesar de possuírem uma premissa moral. É o que acontecia com o IRA, que praticava inúmeros atos terroristas (atos imorais) com o objetivo de garantir ao seu povo liberdade política e social (premissa moral).

A Coleira da Moral

"Cada qual deve ver como é impossível subjugar um homem sem antes tê-lo colocado na situação de viver sem o outro" Jean-Jacques Rousseau

"De fato, nós, filósofos e 'espíritos livres', ante a notícia de que o 'velho deus morreu', nos sentimos como iluminados por uma nova aurora" Fridriech Nietzsche

A moral é um conjunto de normas e conceitos que se aceita intimamente. Ela modela modela padrões da sociedade de forma contrutiva ou destrutiva. Para ambos os filósofos supracitados, a moral tem um poder desctrutivo para o indivíduo e para a sociedade.

Rousseau discorre sobre como uma moral construída pela elite é fundamental para que a maioria das pessoas aceitem a estratificação da sociedade como algo natural. Para dois indivíduos, sendo um "socialmente superior" ao outro, independente dessa superioridade forjada pela moral, existe uma relação de interdependência mútua; é essa moral elitista que leva o indivíduo que se encontra em uma situação de inferioridade a achar que sua dependência para com o outro é maior que a inversa. É um absurdo, pois, que pessoas vivam em situações inclusive humilhantes por não entenderem os laços de servidão.

A religião, para Nietzsche, gera uma situação de falso conforto, que leva as pessoas a suportarem um desconforto temporário devido a essa crença em um conforto futuro e eterno. Para que esse conforto eterno seja garantido, são impostas certas limitações e aceitações, levando a uma subserviência a um ser sobrenatural criado pelos homens. Ele chama essa moral de "moral de rebanho". Segundo ele, essa visão deturpada de deus, essa formulação de uma entidade divina que dita regras a serem seguidas, é o próprio assassinato de deus. A partir do momento que se percebe que "deus está morto", o indivíduo torna-se um "espírito livre", capaz de escapar das limitações dessa moral de rebanho.

A quebra com a moral parra Rousseau traria uma extinção das desigualdades sociais, enquanto que para Nietzsche, o rompimento com a moral de rebanho levaria o indivíduo a uma liberdade interior. Ambos, pois, veem a moral como fator limitante da vida como um todo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Ciência e a Pedra

Até a idade média, a evolução da ciência se via retardada pela soberania do saber religioso, seja de forma indireta ou não. Com o Renascimento, essa realidade começou a mudar: a valorização do homem (antropocentrismo) se confronta naturalmente com a visão teocentrista, o que implica em uma necessidade de explicar os acontecimentos com o mínimo de subterfúgios não questionáveis (crenças). A ciência, por atender a essa demanda, começa a crescer com velocidade maior que antes.

A evolução do saber científico resulta em duas consequências principais: um conhecimento maior acerca da natureza e dos seres que a compõem; e a possibilidade de usar esse conhecimento como instrumento para moldar a natureza. A primeira dessas consequências é atingida, também, pela religião, porém com explicações e confiabilidade diferentes. A segunda, no entanto, é diferente, para a religião: enquanto a ciência - em especial as ciências da natureza - possibilita um certo controle da natureza, a religião leva a um controle das ações, através do controle da moral - esse tipo de controle é aderido posteriormente pela ciência, principalmente através do behaviorismo, onde não se controla a moral, mas sim os costumes. Essa capacidade de controlar a natureza eleva a ciência, garantindo sua constante evolução e uma crescente aceitação pelo povo.
A política tem como intuito principal atingir determinados objetivos, existindo inúmeras formas de fazê-lo. Uma maneira aparentemente simples de atingir algum objetivo, é controlando as variáveis do problema. No caso de mudanças ou permanência de algo referente à sociedade, seja no aspecto cultural, ecoômico, ou outro, as variáveis do problema são os seres humanos. Seu controle é, portanto, um artifício extremamente interessante para que aqueles objetivos sejam alcançados. A ciência se mostra, pois, capaz de controlar os pensamentos e ações humanas - assim como a religião -, devido à sua aceitação enquanto verdade. Isso faz da ciência artifício político de controle, ou seja, deturpa seu objetivo inicial, que era de conhecer.
"O cientista não estuda a natureza porque ela é útil; estuda-a porque se delicia com ela, e se delicia com ela porque ela é bela. Se a natureza não fosse bela, não valeria a pena conhecê-la e, se não valesse a pena conhecê-la, não valeria a pena viver." Henri Poincaré
Visto que a política e a economia andam juntas, para a aplicação desse controle, faz-se necessário, antes, controlar o direcionamento, o que acontece através dos conselhos ou fundações de apoio às pesquisas. Para que uma descoberta científica aconteça, principalmente uma descoberta empírica, é necessário um patrocínio. Em outras palavras, a evolução da ciência está, hoje, praticamente restrita ao que tais organizações julgam interessantes, fato esse ordinário em um sistema político-econômico capitalista.
Devido à crescente rede de fast-food, não só no contexto de alimentação, o pensamento do ser humano gira em torno da velocidade da descoberta e sua utilidade, destruindo, novamente, o objetivo primordial da ciência. Para a ressurreição da ciência enquanto busca pela verdade - assim como a filosofia, porém com meios e fins diferentes - é necessária a aplicação do anarquismo epistemológico feyrabendiano, livrando a ciência das correntes econômicas e políticas e deixando-a livre.
"Sabedoria é, antes de tudo, a subordinação do saber ao interesse humano e não ao próprio interesse do saber pelo saber (ciência) e muito menos a interesses apenas parciais ou de certos grupos humanos." Anísio Teixeira

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Tao


Toda a vida existe em ciclos, sendo eles bióticos ou abióticos. A água que ingerimos anteriormente passa pela terra, segue o percurso de rios; depois que eliminamo-la, ela volta à terra, passa por organismos vegetais, volta às nuvens, desce à terra e continua o ciclo. O mesmo acontece com outras moléculas, ou até mesmo elementos químicos, como os notórios ciclo do carbono e do nidrogênio.

Um ciclo, porém, nunca existe sem equilíbrio; para tal, é necessária uma compensação entre o que é cedido e o que é recebido, ou seja, a lei kármica - ou, analogamente, a lei newtoniana da ação e reação - é o princípio fundamental para os ciclos, mesmo quando essa lei não atua sobre ações conscientes. Assim, não existe qualquer sentido falar em vida sem citar a morte.

A morte não passa, pois, de um elemento do ciclo do qual a vida faz parte. Não existe uma distinção entre esta e aquela, mas ambas se interceptam e se completam. Para tanto, o conceito de eternidade é intrínseco ao conceito de vida, mas não necessariamente uma eternidade consciencial. Em outras palavras, o conceito de eternidade da alma é externo - e não necessariamente verdadeiro - ao conceito de eternidade da vida.
Com tais premissas, não há qualquer sentido em viver a vida pensando no além-vida, ou viver uma parte do ciclo pensando em outra - ou o presente pensando no futuro. O momento é de extrema importância para seu consequente, i.e., viver o momento pensando em um outro é o mesmo que não vivê-lo.
Por outro lado, a existência do ciclo da vida implica na transmutação entre as espécies - fato esse evidenciado na teoria darwinista da evolução -, levando a uma conexão entre todos os seres. Indo além, o ciclo do carbono, por exemplo, integra, no mínimo, toda a matéria orgânica (viva ou não), reforçando os conceitos holistas - uma espécie pode ser interpretada como a manifestação imortal dos seres que a representam, podendo, pois, tomar uma espécie como um ser único e imortal.
"Sei que, se afirmasse com seriedade a alguém que o gato ocupado em brincar nesse momento no quintal é o mesmo que, há trezentos anos, fez as mesmas cabriolas e estratagemas, eu passaria por um tolo, mas sei também que é muito mais insensato acreditar numa diferença absoluta e radical entre o gato atual e aquele de há trezentos anos." Arthur Schopenhauer
Essa integração entre os seres leva a uma igualdade entre eles, evidenciando seu princípio comum, que pode ser interpretado como uma metáfora do átomo de Demócrito, ou até do princípio divino (ou energia vital). A máxima dessa afirmação é a consciência de que todos fazemos parte do todo, seja fisicamente - como exemplo os seres terrestres fazem parte do planeta e o completam - ou energeticamente - enquanto egrégora -, implicando não num conjunto de seres, mas numa comunhão deles.
"-Oh, como sofro! As outras ondas são grandes e eu sou pequena. Algumas estão em ótima situação, e eu sou tão desprezível...
-Você acha que sofre porque não viu claramente a sua forma original.
-Não sou uma onda? Então o que sou?
-Uma onda é apenas sua forma temporária. Você é água.
-Água?
-Quando perceber que sua essência é água, não ficará confusa em relação a ser uma onda e deixará de sofrer.
-Ah, entendi. Sou você, e você é eu. Somos parte de um eu maior." um koan
"Para ver o mundo em um grão de areia, e o paraíso em uma flor silvestre, segurar o infinito na palma de sua mão, e a eternidade em uma hora..." William Blake

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Universo de Ajna


A física quântica admite o tempo como uma quarta dimensão, que está inteiramente conectada com as outras três mais conhecidas, formando o que podemos chamar de espaço-tempo.
Porém, esse conceito de tempo se torna irrelevante quando se fala a respeito de um ciclo, assim como o conceito de espaço. Em uma circunferência, não se pode definir onde é o início e onde é o fim, sendo esse início e fim temporal ou espacial. Em uma situação perfeita, existindo apenas um elemento portador de matéria no centro e um outro que gira ao redor do primeiro, esse elemento que está em movimento circular uniforme vai permanecer nesse movimento eternamente e sua posição - ainda considerando uma situação ideal - vai ser inexistente, pois não existindo uma outra referência, a qualquer momento, o objeto em movimento estará a uma mesma distância do objeto pontual no centro e, existindo o vácuo ao seu redor, as referências como esquerda, direita, acima ou abaixo não terão sentido, estando o objeto em movimento simplesmente ao redor do outro.

Da mesma forma, em uma teoria atômica recente, o elétron é ao mesmo tempo matéria e energia (onda eletromagnética), sendo assim em um determinado instante, ele estaria não só em um lugar, mas em vários, alternando essas "posições" eternamente, formando um ciclo, uma vez que mesmo um movimento aleatório vai se repetir em algum momento.

Lembrar, segundo dicionários, é trazer alguma coisa à memória; que por sua vez é a perte do cérebro ou da mente (ou de ambos) que armazena acontecimentos, sentimentos, idéias, sensações, tudo que puder ser captado pelos órgãos dos sentidos e ainda o que não pode ser percebido pelos cinco sentidos. Dizem que uma vez que você passou por certa situação ou que presenciou algum fato, não é possível esquecê-lo; no máximo, pode-se perder o caminho que leva a esse conhecimento, assim como um livro que está em uma biblioteca continua lá, mesmo que seu dono não consiga achá-lo.

Assim o primeiro conhecimento armazenado na memória é o auto-conhecimento. Não há uma única pessoa que não se conheça. O fato é que elas não desejam se conhecer. Esse auto-conhecimento pode ser levado à idéia de memória, afinal cada um se conhece e essa memória existe desde sempre, é atemporal. Pode ser chamada de memória intrassugestiva, pois é uma lembrança que prescinde de efeitos externos. É uma parte da memória inteiramente interna. Portanto, recuperar esse auto-conhecimento é uma coisa extremamente importante - talvez a mais importante - a ser feita. Quando estudamos uma semente, tudo a respeito da planta está lá. Quando estudamos uma molécula de DNA, ela fala tudo sobre aquele ser e nos tornamos íntimos dele. Quando uma pessoa se torna íntima de si mesma, as possibilidades são infinitas e, então, tudo é possível.

Hoje em dia esquecemos das coisas. Tanto que muita gente ainda pergunta "Qual o sentido da vida?", mas se esquecem que um sentido funciona com um vetor, uma seta, ou seja, o sentido de qualquer coisa aponta de uma coisa para a outra, assim como um índio aponta sua flecha para a caça. Essa pergunta vai continuar para sempre se as pessoas se esquecerem de qual é o ponto de partida dessa flecha.

"A verdadeira viagem se faz na memória" Marcel proust

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Yin Yang

As coisas funcionam devido ao equilíbrio. Sem o equilíbrio, qualquer sistema vai se movimentar para alguma direção específica.

Do mesmo jeito que um objeto com massa maior que o oposto em uma balança vai deslocar o equilíbrio da balança, um rompimento do fluxo natural da energia vital pode levar a uma doença.

Assim é necessário buscar um fluxo energético saudável; não digo uma energia saudável, pois o fluxo está sempre presente.
A matéria está eternamente em movimento, pois com o mínimo de energia, a matéria ainda teria movimentos vibracionais, axiais, etc.
Além disso, toda a matéria tem elétrons que são ao mesmo tempo matéria e energia, ou seja, todos os corpos estão "inundados" em um fluxo energético constante.

Os seres vivos têm uma representação perfeita desse fluxo no sangue, que é um fluido extremamente energético - por isso a lenda dos vampiros diz que eles são imortais e sugam sangue, para conseguir energia extra. Outro exemplo é sistema nervoso, que nada mais é que impulsos elétricos que, por sua vez, não passam de movimentação de elétrons (movimentação energética).

"Tudo está em eterno movimento" Hermes Trismegisto

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ab ovo

"Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo, procurando, foi justamente num sonho que ele me falou" Raul Seixas - Gita

E o que é o sonho, senão uma representação pessoal da realidade?
E o que é a vida, senão um sonho?
Até o dia que você decide acordar...

"Before you know, awake" System of a Down - Spiders